segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

MESMOS


A Guerra nunca terminou. Talvez esteja silenciosa agora. Silenciosa para os ouvidos de uma maioria surda que não entende a diferença entre imagem e realidade.

Essas pessoas talvez sejam as mesmas, descrentes quanto à aptidão de se enxergar por outros sentidos - não só pela visão como também pelo paladar, tato ou olfato.

Os gaviões que ouvem do alto, não se incomodam com a carnificina dos fins que justificam os duvidosos princípios, os mesmos. Te atolaram em ismos, na tentativa de apagar da tua memória o que em todos é comum. A visão é diferente daqui de baixo: ninguém gosta de acordar às seis horas da manhã – mesmo que você já tenha se convencido do contrário, eu não acredito nisso.

Negar esses defeitos básicos, que não fazem menos que confirmar a ingerência humana sobre os eventos caóticos do cotidiano, é negar uma das condições de ser do homem. Não há um só homem vivo neste mundo que tenha total controle de suas ações durante as 24 horas de um dia, ou melhor, mesmo descontando 8 horas de sono, essa  hipótese permanece insustentável.

A Internet tem se mostrado o mais fiel espelho a refletir nossas semelhanças. O seu tempo escorre por todas as frestas como água que se quer conter, não há o que não esteja virado às avessas na Rede. Chega a ser irônico como o ser humano foge do calor do sol em dias como hoje – sobreviver nunca foi fácil, mas vender a idéia inversa sempre foi.

As emissoras de televisão não têm o mesmo poder que tinham há 10 anos e nem o mesmo que tinham há cinco; há uma profunda crise de investimento na mão de obra norte-americana, tendo como um de seus principais motivos, senão o único relevante, a queda atual do consumo em todo o mundo.

Essa hipótese é legitimada e torna-se fato quando, analisando o exemplo da indústria fonográfica constata-se a substituição no consumo das medias mais antigas - seja o CD, o DVD, o LP (Long Play) ou a do k-7 - pelo historicamente recentíssimo fenômeno do download via torrent’s. Algumas dessas já não são mais facilmente encontradas no Brasil há muitos anos, mas é importante lembrar que essa crise é global e
atinge até mesmo o continente europeu.

Faz parte da propaganda controversamente veiculada até mesmo pelos grandes portais da Rede, certa amenização dessa queda. Basta pensar que não há qualquer motivo para se acreditar que os multimilionários e bilionários estejam interessados em perder parte das suas fortunas.

A idéia de comprar um carro a preços brasileiros é razoável se comparada à idéia de se dispor ao uso do transporte público nos grandes centros do Brasil. Nunca foi tão fácil conhecer sem sair de casa, mas conhecer o quê?

– Um reflexo de tudo que nunca poderia ser imaginado por muitos; espelho do universo deste mundo.

Felipe José

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

CRIME NO ARMÁRIO


Em legítima defesa
de um mínimo de bom gosto
minha camisa de seda
clássica
branca
casta
estrangulou até a morte
aquele vestido estampado
que berrava tantas cores
pelos corredores
do armário
que acabou provocando
na coitada da camisa recatada
                                                    um ataque de loucura!



Maura Angelina

domingo, 31 de janeiro de 2010

MORTE SÚBITA


De súbita
ela não tinha nada
desde a semana passada
vinha se fazendo presente
nos pequenos acidentes
no banheiro, na varanda, na cozinha...

Há dias que eu pressentia
sua presença sombria
no fio afiado da faca
no degrau frouxo da escada
na dor pungente no peito...

Eu sabia que ela viria
mas jamais imaginava
que quando ela aparecesse
de supetão, à queima roupa
acabaria me matando
                                      ...de susto!

Maura Angelina


quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

MODERNIDADE


Não sou assim
dos tão antigamente
quanto meus bons e velhos poetas
preferidos...

Enquanto eles escreviam
sobre arrabaldes, realejos e casarios
em meus poemas de hoje pergunto
onde estaria, então,
aquela enorme plantação
de antenas de televisão
nos telhados de outro dia mesmo?

Maura Angelina

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

SEMPRE EM JUNHO
Para piorar havia estrelas, naquele céu de junho, e uma lua de doer de linda!
Na mesa os pratos ficaram intocados.
Não pude chorar ou argumentar ou pedir que ficasse, foi um fim sem recurso.
Amanhecera aquele dia vivendo nosso jantar de aniversário, coloquei roupa de cama nova, escolhi o perfume e um vestido pretinho, ajustado na cintura, com um belo decote insinuante. Desliguei o telefone, a televisão, coloquei música suave, criando um ambiente transbordante de sensualidade.
Esse cenário permaneceria intacto por algum tempo, acho que ficou assim por uns dois dias, pra que eu nunca mais esquecesse como havia sido cega!
Minha respiração ficou suspensa quando ele levantou o olhar, sem nem ter passado soleira adentro, e desferiu a frase inapelável:
-Acabou, não haverá mais nenhum aniversário!
O tom carrasco apunhalou-me o mais fundo da alma e minha voz não saía, assim como nos pesadelos.
Paralisada, não fiz um único movimento enquanto ele pegava algumas coisas e, sem se virar, resmungou:

-Até um dia, Janice...
-Janice!Como é que você pode imaginar que eu iria viver pelo resto dos meus dias com uma mulher com esse nome? Ninguém merece! - resmungou ao sair, deixando a porta entreaberta.

Nunca mais fui a mesma. Viver passou a ser uma sentença...
Fui-me tornando chata, amarga, reclusa e, como um fantasma, vagando pela casa, relendo nossa história impressa em cada objeto, cada móvel, cada quadro, cada fotografia.
Até que um dia, amanhecido de um sol insuportavelmente radiante, escancarei as janelas e dei comigo no espelho: era eu aquela que me olhava?
Desbotada, despenteada, com um par de olheiras que mais parecia de um cadáver!Quase arrombando a janela, arregacei a alma e fui jogando janela afora tudo que fez parte da nossa história e como era junho de novo fiz uma enorme fogueira.
Queimei lembranças, dores e ofensas, escolhi viver uma nova vida.
Debruçada no parapeito, sentia a catarse das chamas engolindo aquele entulho de más recordações.
No jardim, alheio ao fogaréu, o jardineiro conversava com uma rosa.
Acomodava-lhe a terra junto à raiz sussurrando carinhosamente, enquanto acariciava suas pétalas: quanta delicadeza! – pensei.
Como nunca havia percebido aquela criatura encantadora ali, semanalmente, tão perto?


Na casa esvaziada, enquanto eu fazia um café ele se sentou na cozinha e me falou de flores.
De como sofria quando as assassinavam aqueles que, à degola, levavam-nas dos canteiros à floricultura, onde quase mortas, tinham-lhes a chacina enfeitada de papel celofane e fitas, para depoi serem oferecidas como presente. Passam do pacote ao vaso, não sangram, não gemem, apenas vão secando, esquecidas num canto da sala, definhando sua formosura sem que ninguém lhe perceba a agonia.


Anoiteceu e ele ainda estava lá, exercendo-me a companhia que busquei por toda uma vida.
Ficou pro jantar, voltou no dia seguinte e almoçou.
Trouxe-me flores... vivas! Um vaso de petúnias lindas que se revezam ciclicamente até hoje.
Deu-me livros e algumas seções de cinema, com toda pipoca que eu tinha direito, por muitos finais de semana...
Deu-me beijos cálidos à luz da lua e beijos sufocantes em jantares à luz de velas.
Deu-me ouvidos, elogios e abraços, muitos abraços, e o braço pra que eu me sentisse segura.
Deu-me um frio na barriga quando me deu sonhos e ilusões na caixa de bombons, onde também havia um par de alianças!

Enfim, deu-se a mim como eu me dei a ele, numa linda noite à luz daquela mesma lua de doer de linda.
Havia estrelas naquele céu, era junho mais uma vez, e ele sussurrava em meu ouvido:

-Janice, Janice, como eu adoro esse nome!

Maura Angelina

domingo, 24 de janeiro de 2010

OLHO POR OLHO

Nesse teu aniversário
planejo algumas coisinhas:
                             um jantar à luz de velas
                      um solo de violinos
                                um brinde com vinho tinto
                                 e mais algumas surpresas...

Daí então lá pelas tantas
quando tudo parecer perfeito
vou cravar no meio do teu peito
                                       um balaço à queima-roupa!

                                                                              Maura Angelina

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

“ DENÚNCIA ”

Bulício, alvoroço
tumulto, agitação
rumores
nos corredores
                                      do Louvre:

A Mona Lisa (aquela)
do sorriso inconfundível
na verdade (pasmem)
                                                     ....era banguela!



Maura Angelina