SEMPRE EM JUNHO
Para piorar havia estrelas, naquele céu de junho, e uma lua de doer de linda!Na mesa os pratos ficaram intocados.
Não pude chorar ou argumentar ou pedir que ficasse, foi um fim sem recurso.
Amanhecera aquele dia vivendo nosso jantar de aniversário, coloquei roupa de cama nova, escolhi o perfume e um vestido pretinho, ajustado na cintura, com um belo decote insinuante. Desliguei o telefone, a televisão, coloquei música suave, criando um ambiente transbordante de sensualidade.
Esse cenário permaneceria intacto por algum tempo, acho que ficou assim por uns dois dias, pra que eu nunca mais esquecesse como havia sido cega!
Minha respiração ficou suspensa quando ele levantou o olhar, sem nem ter passado soleira adentro, e desferiu a frase inapelável:
-Acabou, não haverá mais nenhum aniversário!
O tom carrasco apunhalou-me o mais fundo da alma e minha voz não saía, assim como nos pesadelos.
Paralisada, não fiz um único movimento enquanto ele pegava algumas coisas e, sem se virar, resmungou:
-Até um dia, Janice...
-Janice!Como é que você pode imaginar que eu iria viver pelo resto dos meus dias com uma mulher com esse nome? Ninguém merece! - resmungou ao sair, deixando a porta entreaberta.
Nunca mais fui a mesma. Viver passou a ser uma sentença...
Fui-me tornando chata, amarga, reclusa e, como um fantasma, vagando pela casa, relendo nossa história impressa em cada objeto, cada móvel, cada quadro, cada fotografia.
Até que um dia, amanhecido de um sol insuportavelmente radiante, escancarei as janelas e dei comigo no espelho: era eu aquela que me olhava?
Desbotada, despenteada, com um par de olheiras que mais parecia de um cadáver!Quase arrombando a janela, arregacei a alma e fui jogando janela afora tudo que fez parte da nossa história e como era junho de novo fiz uma enorme fogueira.
Queimei lembranças, dores e ofensas, escolhi viver uma nova vida.
Debruçada no parapeito, sentia a catarse das chamas engolindo aquele entulho de más recordações.
No jardim, alheio ao fogaréu, o jardineiro conversava com uma rosa.
Acomodava-lhe a terra junto à raiz sussurrando carinhosamente, enquanto acariciava suas pétalas: quanta delicadeza! – pensei.
Como nunca havia percebido aquela criatura encantadora ali, semanalmente, tão perto?
Na casa esvaziada, enquanto eu fazia um café ele se sentou na cozinha e me falou de flores.
De como sofria quando as assassinavam aqueles que, à degola, levavam-nas dos canteiros à floricultura, onde quase mortas, tinham-lhes a chacina enfeitada de papel celofane e fitas, para depoi serem oferecidas como presente. Passam do pacote ao vaso, não sangram, não gemem, apenas vão secando, esquecidas num canto da sala, definhando sua formosura sem que ninguém lhe perceba a agonia.
Anoiteceu e ele ainda estava lá, exercendo-me a companhia que busquei por toda uma vida.
Ficou pro jantar, voltou no dia seguinte e almoçou.
Trouxe-me flores... vivas! Um vaso de petúnias lindas que se revezam ciclicamente até hoje.
Deu-me livros e algumas seções de cinema, com toda pipoca que eu tinha direito, por muitos finais de semana...
Deu-me beijos cálidos à luz da lua e beijos sufocantes em jantares à luz de velas.
Deu-me ouvidos, elogios e abraços, muitos abraços, e o braço pra que eu me sentisse segura.
Deu-me um frio na barriga quando me deu sonhos e ilusões na caixa de bombons, onde também havia um par de alianças!
Enfim, deu-se a mim como eu me dei a ele, numa linda noite à luz daquela mesma lua de doer de linda.
Havia estrelas naquele céu, era junho mais uma vez, e ele sussurrava em meu ouvido:
-Janice, Janice, como eu adoro esse nome!
Maura Angelina
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