DITO E FEITO "
-Apareça lá em casa ...E ela apareceu!
Trazia uma sacola crochê com um inseparável, maneira de disfarçar o olhar enquanto falava da vida dos outros, o que fazia com maestria, um guarda-chuva preto e um lenço com que enxugava o suor do rosto.
Veio de ônibus.
Abalou-se de lá de "onde o Judas perdeu as botas", bem cedo ...
- Antes que o sol quente me desanimasse exclamou -.
Eu e a minha enorme boca!
Mais uma vez, perdi a chance de ficar calada.
Em boca fechada não entra mosca ... foi a primeira coisa que pensei, depois do susto de constata-la plantada na cozinha da porta, antes mesmo que eu tivesse Escovado os dentes.
Balbuciei algo, que mais parecia um gemido, e ela entrou.
Olhou-me como se me censurasse Só por ter levantado Àquela hora.
Eram sete da matina do domingo meu e mal sabia ela a noite que eu havia passado, ZANZANDO meus problemas do quarto à sala, um fantasma feito.
Já dentro, fez menção de me dar um abraço mas, chocada, ficou parada ante uma visão dantesca de meu filho descabelado de cuecas, entrando na cozinha.
A surpresa foi mútua. Os dois se entreolharam como se viessem de planetas diferentes, o que de certa forma era verdade.
Ela, com um vestido que algum dia foi preto, num luto de décadas, desbotado e um cheirando naftalina, o guarda-chuva do Tom mesmo, pendendo do braço esquerdo, que mais parecia um assessório à altura.
Ele, com sua indecência Exibida - como ela dirá quando o assunto da fofoca formos nós ...
Passado o primeiro momento e interminável, meu filho tomou um copo de água e desapareceu rumo ao segundo sono, e nós voltamos ao momento de sua chegada.
Ela me deu um abraço de protocolar uma efusividade e se sentou, fazendo um elogio ao lindo amanhecer daquele domingo.
Ai, e que seria domingo ...
Sem a menor chance de voltar pra cama, como de costume até às nove, coloquei água pra fazer um café.
-Você ainda menina toma café? Sabe o que faz mal pros nervos - profetizou, ainda armada do guarda-chuva, guardando o lenço na bolsa e sacando o fatídico crochê.
Crochê à mão, ela começou a conversa, identificando como Vítimas escaladas para o assunto do dia ....
Distraída, sorvi do café como Energias do sono desperdiçado, enquanto observava seus dedos num frenético trancar linha de agulha e automático.
Depois de alguns minutos, ela me sacudiu A UM COM ATENÇÃO saquinho que Tirara da bolsa e me propôs um sorteio.
Que teria perdido do assunto, pensei?
- Um papelzinho Tire-disse ela, completando uma frase que eu não ouvirá.
- Desculpe, pra que é mesmo o sorteio?
- São os nomes de todas as pessoas que me convidaram para aparecer na casa delas. Sorteie um nome pra eu saber onde vou passar o próximo domingo.
Sorteei.
No papel Luzia O Nome da pobre coitada "Ana da padaria".
Condoída pela Ana, que mal sabia o que lhe esperava no domingo próximo, (até bem que sentia-me de pensar que eu estava melhor, pois o meu já estava ali, em andamento) fiz menção de jogar o papelzinho da moça da padaria lixo não , ao que ela me impediu quase aos berros:
- Não! Esse vai pra este outro saquinho aqui - disse ela tirando um de outra cor da bolsa ...
- Quando os nomes acabam deste aqui (anterior mostrou aquele) - eu recomeço o rodízio ...
Caí na cadeira Desolada outra, sob suspense o de que eu teria outro e mais outro (Deus sabe lá quantos domingos perdidos, daqui pra frente ..... e quando?)
Maura Angelina
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